MEM INST OSWALDO CRUZ, RIO DE JANEIRO, 91(2) Mar/Apr 1996
PAGES: 249-254 DOI: Full paper
Aspectos Bionômicos de Squamatoides trivittatus (Diptera, Sarcophagidae) sob Condições de Laboratório

Ricardo JB Salviano, Rubens Pinto de Mello*, Lilian CNH Beck, José Mario d'Almeida

Laboratório de Biologia e Controle de Insetos Vetores, Departamento de Biologia
*Laboratório de Diptera, Departamento de Entomologia, Instituto Oswaldo Cruz, Av. Brasil 4365, 21045-900 Rio de Janeiro, RJ, Brasil

Abstract

Bionomical aspects of de Squamatoides trivittatus (Diptera, Sarcophagidae) under laboratory conditions - Experiments with Squamatoides trivitattus were carried out in two different controlled temperatures (16±1°C/50-60% RH and 27±1°C/70-80% RH). The viability of larvae and pupae at 27°C was 89.82% and 92.75% respectively. Larvae did not develop at 16°C. Larval development lasted for 20±4 hr, 16±8 hr and 60±7 hr for the first, second and third instars, respectively, completing a total of 96±6 hr. The mean pupal period lasted for 15.7±1.6 days. In longevity tables for the adults, life-expectancy for 50% of the colony submitted to 16°C was of 1.78 weeks for males and 2.42 for females. At 27°C a life-expectancy of 1.15 weeks for males and 0.78 week for females was recorded. The average life-spans for males and females at 16°C were 3.5±2.0 and 3.8±2.6 weeks, respectively, and 1.9±1.2 weeks for both sexes. At 27°C, the longevity recorded was of 2.1±1.3 weeks for males and 1.7±1.1 week for females.

O gênero Squamatoides Curran, 1927 está representado por três espécies: S. trivittatus Curran, 1927, S. spitzi (Lopes 1933) e S. stahli Dodge, 1966, sendo que apenas as duas primeiras são encontradas no Brasil. S. trivittatus está restrita ao Campo Cerrado da América do Sul; no Brasil é encontrada nos estados de Mato Grosso, Goiás, Minas Gerais e São Paulo (Lopes 1969).

Linhares (1981), estudando dípteros muscóides, em São Paulo, verificou que S. trivittatus apresenta um elevado grau de sinantropia. Em áreas que apresentam condições ambientais muito próximas à estudada por Linhares, Mendes (1991) obteve 33,33% dos espécimens coletados em fezes humanas, o que confere importância a este Sarcophagidae como potencial vetor de agentes enteropatógenos.

Apesar do interesse médico e sanitário dos dípteros desta família, são escassos os estudos sobre sua biologia. Em sua maioria, os trabalhos relacionados com as fases imaturas avaliam o período de desenvolvimento, a viabilidade e a competição larval em diversas condições de temperatura e umidade relativa (Kamal 1958, House 1977, Levot et al. 1979, Baxter & Morrison 1983; Jirón & Bolanos 1986, Ferraz 1992a,b). Os artigos relacionados à fase adulta estão em grande parte relacionados aos aspectos comportamentais (preferência de substrato para postura e alimentação), biogeográficos (sinantropia), longevidade e capacidade reprodutiva (Kamal 1958, Ferreira 1978, Linhares 1979, 1981, d'Almeida 1983, 1984, 1986, 1988, 1989, 1993, Ferraz 1992a,b). Tais aspectos, dentre outros, podem ser analisados através de tabelas de vida, que nos permitem avaliar satisfatoriamente todo o processo de vida dos insetos e relacioná-lo a diversos fatores, como temperatura, dieta, efeito de grupo (Pearl & Parker 1921, Pearl et al. 1927, Jackson 1936, Mendes 1961, Carey 1987, Bressan & Teles 1991).

Devido à inexistência de trabalhos sobre a biologia de S. trivittatus, foram avaliados alguns aspectos de suas fases evolutivas: período e viabilidade larval e pupal, razão sexual, longevidade, curva de sobrevivência de adultos em diferentes temperaturas e umidades. Foram elaboradas tabelas de expectativa de vida.

 

MATERIAIS E MÉTODOS

Os experimentos foram realizados em câmaras climatizadas reguladas a 16±1°C e 27±1°C de temperatura e 50-60% e 70-80% de umidade relativa do ar (URA). Essas temperaturas foram escolhidas por corresponderem às médias das máximas e mínimas durante 27 anos, no Distrito Federal.

A colônia foi estabelecida a partir de insetos coletados em áreas de cerrado e urbana da cidade satélite Taguatinga (DF) no período de 27 de março a 04 de abril de 1992.

Para observação da viabilidade larval, utilizaram-se larvas de colônias mantidas em temperatura ambiente (25-27°C). Setenta e oito grupos de 10 larvas de primeiro estádio foram introduzidos em recipientes plásticos (5 cm altura x 6 cm diametro), contendo, cada um, 20g de sardinha com 24h de decomposição (2g/larva). Desses grupos, 20 foram levados para câmara climatizada a 16°C e os demais mantidos em câmara a 27°C. As observações diárias foram feitas em dois horários: 8h e 17h30 min.

Para avaliar a duração do período larval foram utilizadas 720 larvas obtidas de larviposturas de uma colônia de indivíduos da sexta geração. Foram separados grupos de 20 larvas em 36 amostras. A cada duas horas uma amostra era retirada da câmara climatizada (27°C e 70-80%) e as larvas eram sacrificadas e fixadas em San Jean (600 ml de água destilada, 300 ml de álcool a 95%, 100 ml de formalina e 10 ml de ácido acético) a quente, e conservadas em álcool a 70%, para posterior verificação do respectivo estádio.

Quanto à fase pupal (duração e viabilidade) e razão sexual, foram usadas 1264 larvas maduras recém-saídas dos substratos de criação. Após pesadas e individualizadas, 200 foram transferidas para a câmara climatizada a 16°C e as demais para câmara a 27°C, registrando-se diariamente as que puparam, as pupas mortas e a emergência dos imagos.

Após emergência e sexagem, 14 amostras contendo 15 casais cada uma, foram separadas em dois grupos: o primeiro, contendo nove amostras, submetido a 27°C e o segundo, com cinco amostras, a 16°C.

Como fonte diária de proteína e substrato de larviposição, utilizou-se sardinha, retirada do congelador, e mantida por 24h em temperatura ambiente, fornecida, para cada gaiola, na proporção de 10 g por pote; além de água ad libitum e açúcar mascavo.

Registros diários do número de mortos em cada amostra foram efetuados com o objetivo de se construir as tabelas de vida, as curvas de sobrevivência e a estimativa das longevidades médias.

As longevidades para os dois tratamentos foram transformadas eme submetidas à análise das variâncias. As médias foram comparadas pelo teste "t" ao nível de significância de 5%.

As tabelas de vida foram baseadas em Carey (1987) e Silveira Neto et al. (1976), que sugerem iniciar as mesmas com a projeção para 1000 exemplares, que é sua raiz. Os parâmetros estão organizados em colunas, em função do intervalo de idade (x), em semanas. Lx representa o número de sobreviventes no começo da idade x; dx é a fração de insetos mortos entre as idades x e x+1, estimada por Lx - Lx+1. Ex representa a estrutura etária, calculado por Lx + Lx+1 / 2. O valor de Tx obtem-se pelo somatório de Ex + Ex+1 + Ex+2 + ... + Ew, onde w é o último estágio. A esperança de vida (ex) foi estimada por Tx / Lx. 1000qx é a coluna de risco, estimada por 1000 dx / Lx.

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

As larvas submetidas a 16°C só se desenvolveram até o segundo estádio. Tal fato pode ter ocorrido devido à exposição prolongada à temperatura e umidade baixas, provocando um ressecamento do substrato e, conseqüentemente, a morte das larvas; o mesmo foi observado durante a avaliação do período pupal, quando as 200 larvas maduras chegaram a pupar, mas não ocorreu emergência. Após três meses de observação, admitiu-se a hipótese de as pupas terem entrado em diapausa. Para esta avaliação, as pupas foram divididas em três grupos. No primeiro, através de dissecação avaliou-se o estado dos imagos, verificando a sua total desidratação. O segundo foi exposto à temperatura de 25°C e 60-70% de URA e o terceiro a 27°C e 80-90% de URA, e em ambos verificou-se que as larvas maduras chegaram a pupar, porém não emergiram devido à total desidratação do imago.

Em algumas espécies, a temperatura baixa não provoca a completa inviabilidade das fases imaturas, como emParasarcophaga crassipalpis e Boettcherisca peregrina, que apresentam um período pupal mínimo de 56 e 50 dias, respectivamente, quando submetidos à temperatura de 15°C (Nishida 1984).

A 27°C a viabilidade média larval foi de 89,82%, valor próximo aos obtidos por Madubunyl (1986) para Sarcophaga haemorrhoidalis (80,69%, a 23-28°C). Resultados semelhantes também foram verificados para Peckia chrysostoma eAdiscochaeta ingens, submetidos à temperatura de 25,9°C e 79% de URA, com 97% e 93% de sobrevida, respectivamente (Ferraz 1992a).

O período larval para S. trivittatus a 27°C durou 96±6 h, onde o primeiro estádio teve duração de 20±4 h, o segundo, de 16±8 h e o terceiro de 60±7 h. O período larval do Sarcophagidae, P. chrysostoma, analisado por Ferraz (1992a), foi de 89 h a 25,9°C e 95 h a 27°C, bem próximo ao obtido para S. trivittatus.

Levot (1979) verificou que, a 27-28°C, larvas de P. crassipalpis alcançaram o final do terceiro estádio após 69 h, com peso máximo e mínimo de 235,7 mg e 173,8 mg, respectivamente. Esta mesma espécie foi estudada por Nishida (1984), onde o período e peso máximo obtido em 25°C foi de oito dias e 152,6 mg; a 30°C chegou a sete dias com 135,9 mg. Para Bperegrina, esse autor obteve os seguintes pesos máximos e durações larvárias nas temperaturas de 25°C e 30°C: seis dias com 115,8 mg, e cinco dias com 87 mg, respectivamente.

A viabilidade pupal para S. trivittatus foi de 92,75%. Kamal (1958) obteve resultados semelhantes para Sarcophaga spp. Madubunyl (1986), estudando Bercaea haemorrhoidalis, observou que a viabilidade pupal foi de 89,83% a 23-28°C. De acordo com Ferraz (1992a) a 25,9°C e 79% de URA a viabilidade pupal para Pchrysostoma foi de 69,9% e para A.ingens 92,8%.

O período pupal médio foi de 15,7±1,6 dias, com o pico de emergência no 15o dia, para 37% das 1064 pupas. dos adultos emergidos, 54,36% foram machos e 45,64% fêmeas; a emergência de adultos foi maior nas pupas que pesavam entre 200 e 299 mg (fig. 1). Os pesos máximos e mínimos das larvas que originaram fêmeas e machos foram de 320-120 mg e 370-150 mg, respectivamente. O peso médio para os machos foi de 257±33 mg e 238±34 mg, para as fêmeas. A razão sexual foi de 0,6 nos imagos provenientes de larvas de 100-199 mg, 1,2 para as larvas de 200-299 mg e 1,8 para as larvas de 300-399 mg.

Segundo Ferraz (1992a), o período pupal de P. chrysostoma e A. igens a 18°C foi 23,5±1,5 dias e 33±3 dias, respectivamente. O período pupal dos Sarcophagidae, em temperaturas próximas a 27°C geralmente fica na faixa de 10-20 dias (Nishida 1984, Jirón & Bolanos 1986, Ferraz 1992a), o que concorda com os presentes resultados.

Na tabela I são apresentadas as expectativas de vida para machos e fêmeas de S. trivittatus, nas temperaturas e umidades relativas propostas.

A expectativa de vida para 50% da colônia submetida a 16±1°C e 50-60% de URA foi de 1,78 semanas para os machos e 2,42 semanas para as fêmeas. Já a colônia mantida a 27±1°C e 70-80% de URA foi de 1,15 semana para os machos e 0,78 semana para as fêmeas. Estes valores juntamente com os apresentados na tabela II, deixam claro que à baixa temperatura, a fêmea de S. trivittatus apresenta uma longevidade maior do que as do macho, provavelmente devido a sua baixa atividade metabólica. a 27°C ocorreu o inverso onde as fêmeas apresentaram uma longevidade menor do que os machos, devido ao maior desgaste (aumento do metabolismo). Um dos aspectos que podem ter evidenciado este fato é o desgaste devido ao desenvolvimento ovariano, como também, pode-se sugerir que esta constatação esteja ligada a algumas características peculiares do ecossistema onde S. trivitattus ocorre. Estes resultados não corroboram com Mackerras (1933) que estudou fêmeas de várias espécies de moscas que vivem mais do que os machos. Ferraz (1992a) também obteve maior longevidade para fêmeas de P.  chrysostoma e A. ingens .

fig. 2 apresenta as curvas de sobrevivência que tendem para o tipo III (Silveira Neto 1976, Carey 1987), onde dx decresce gradativamente a cada intervalo x (tabela I). Analisando as curvas, pode-se verificar que a sobrevivência foi maior a 16°C, onde dx aumentou rapidamente até a 4a semana, decaindo mais lentamente até a 7a, quando aumentou novamente até a última semana. A 27°C, ocorreu o mesmo para dx, sendo que terminam na 7a semana.

Os sarcofagídeos de regiões tropicais, apresentam diferenças biológicas quando estão em seus respectivos ambientes naturais, onde os fatores abióticos modificam-se constantemente ao longo do dia, e as suas necessidades alimentares não são limitadas ou excluídas, ao contrário do que ocorre quando criados em laboratório. No caso de S. trivittatus, acredita-se que as condições do Cerrado, onde ela é endêmica, influam marcadamente na sua bionômia.

 

AGRADECIMENTOS

Ao Dr. Hugo de Souza Lopes, in memorian, pela iniciação nos estudo dos dípteros caliptrados, pelo apoio, incentivo e exemplo profissional. A Vanderléia Cristina de Oliveira, pela ajuda na manutenção das colônias. A Dra. Marli Maria Lima pela revisão e sugestões no texto.

 

REFERÊNCIAS

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Recebido em 21 de julho de 1995
Aceito em 22 de novembro de 1995

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