MEM INST OSWALDO CRUZ, RIO DE JANEIRO, 94(6) Nov/Dez 1999
PAGES: 851-854 DOI: Technical notes
Influência da temperatura no ciclo de vida de Triatoma melanosoma Martínez, Olmedo & Carcavallo, 1987 (Hemiptera, Reduviidae)

Cleber Galvão +, Dayse da Silva Rocha, Vanda Cunha, Octavio Augusto França Presgrave*, José Jurberg, Rodolfo Carcavallo

Laboratório Nacional e Internacional de Referência em Taxonomia de Triatomíneos, Departamento de Entomologia, Instituto Oswaldo Cruz
*Departamento de Farmacologia e Toxicologia, INCQS-Fiocruz, Av. Brasil 4365, 21045-900 Rio de Janeiro, RJ, Brasil

Abstract

Influence of the Temperature in the Life Cycle of Triatoma melanosoma Martínez, Olmedo & Carcavallo, 1987 (Hemiptera, Reduviidae) _ Authors studied the temperature influence in the life cycle of Triatoma melanosoma Martínez, Olmedo & Carcavallo, 1987. Two study groups were used, one was maintained at temperatures of 28 ± 1oC and 80 ± 5% RH, with a photophase of 12 hr, the other was kept at environmental temperature, daily recorded, and a RH varying from 70 to 90%. After hatching, insects were fed once a week on pigeons. Results were analyzed with the Mann-Whitney test, showing that a mean increase of 2oC was suficient for a significant acceleration of the embryonic development. Comparing nymphal stages of both groups, no significant differences were found, except in the second instar nymphs.

RESEARCH NOTE

O aquecimento global e suas conseqüências vêm sendo discutidos nos mais diversos foros. A Organização Mundial de Saúde em associação com a Organização Mundial de Meteorologia vêm, desde 1990, promovendo estudos e discussões sobre os impactos que as mudanças climáticas poderão ocasionar na saúde humana, e publicaram recentemente estudos dos maiores especialistas no assunto (WHO 1996 Climate Change and Human Health, Geneva). No caso dos vetores da doença de Chagas as principais conseqüências do aumento da temperatura e diminuição da umidade seriam o aumento do número de repastos, a diminuição do período de desenvolvimento, o aumento da densidade populacional e a ampliação da distribuição geográfica de diversas espécies (JJ Burgos et al. 1994 Entomol Vect 1: 69-78, SI Curto de Casas et al. 1994 Entomol Vect 1: 51-68, RU Carcavallo et al. 1998 Entomol Vect 5: 37-138). A elevação da temperatura também estimula o vôo dos adultos facilitando a dispersão (NG Williams & CJ Schofield 1985 Trans R Soc Trop Med Hyg 79: 282, MJ Lehane et al. 1992 Acta Tropica 52: 27-38). Triatoma infestans melanosoma foi descrita em 1987 (AM Martínez et al. 1987 Chagas 4: 479-480) como uma subespécie Argentina. A descrição foi baseada em espécimes completamente negros, capturados nos arredores de habitações rurais, próximas a galinheiros, na província de Misiones, Departamento San Ignacio, no extremo nordeste daquele país. Desde então, a espécie vem sendo mantida em insetários do Brasil e da Argentina. Sua estabilidade fenotípica perdurou por diversas gerações levando H Lent et al. (1994 Mem Inst Oswaldo Cruz 89: 353-358) a elevarem-na ao status de espécie, a qual denominaram T. melanosoma. Desde sua descoberta, com exceção da publicação do período médio de duração do ciclo de vida por D Canale et al. (1999 Bionomics of some species/Bionomia de algumas espécies. In RU Carcavallo, I Galíndez Girón, J Jurberg e H Lent (eds.), Atlas of Chagas' Disease Vectors in the America/Atlas dos Vetores da Doença de Chagas nas Américas, vol. III, Fiocruz, Rio de Janeiro, no prelo) não foram publicados trabalhos abordando aspectos de sua biologia. O presente trabalho teve como objetivos ampliar o conhecimento específico através do estudo do período de desenvolvimento de ovo a adulto e avaliar a influência da temperatura sobre o mesmo período.

Foram utilizados descendentes de uma colônia iniciada com os insetos coletados na Argentina. Os insetos são mantidos em temperatura ambiente com alimentação quinzenal em pombos (Columba livia) no insetário do Laboratório Nacional e Internacional de Referência em Taxonomia de Triatomíneos do Departamento de Entomologia do Instituto Oswaldo Cruz. Os ovos coletados, diariamente, eram agrupados de acordo com a data da postura e divididos em dois grupos. Um mantido em estufa a temperatura de 28 ± 1oC e 80 ± 5% de U.R. com fotofase de 12 h. (condições controladas = CC) e outro em temperatura ambiente registrada diariamente e com umidade variando de 70 a 90% (condições ambientais = CA). As 30 primeiras ninfas emergidas em cada grupo foram individualizadas em frascos de Borrel numerados e fechados com telas de náilon, forrados com papel de filtro, contendo tiras de papel dobradas em "sanfona" para absorver a umidade e aumentar a área de deslocamento dos insetos. A alimentação foi realizada em pombos imobilizados e oferecida diariamente até a ocorrência do primeiro repasto, passando então a ser semanal. Os resultados foram tratados estatisticamente pelo teste de Mann-Whitney.

Desenvolvimento embrionário - O efeito de temperaturas mais altas acelerando o desenvolvimento embrionário de um triatomíneo foi observado experimentalmente pela primeira vez em Triatoma infestans (Klug, 1834) (A Neiva 1913 Mem Inst Oswaldo Cruz 5: 24-31). Posteriormente, H Galliard (1935 Ann Parasitol Hum Comp 14: 97-112) observou este efeito no desenvolvimento dos ovos de Triatoma dimidiata (Latreille, 1811), Triatoma vitticeps (Stal, 1859) e Rhodnius prolixusStal,1859em diversas temperaturas controladas entre 15oC e 34oC, verificando que o desenvolvimento das três espécies foi mais rápido a 32oC . R Zeledón et al. (1970 J Med Ent 7: 313-319) obtiveram média de 29 dias para os ovos de T. dimidiata mantidos entre 21.8 e 23.9oC e de 22,9 dias para aqueles mantidos a 26oC e AM Borba (1972 Biologia de Panstrongylus megistus (Burmeister, 1835) em condições artificiais _ Aspectos ecológicos e epidemiológicos desta espécie no Estado do Paraná (Hemiptera, Reduviidae, Triatominae), Tese de Mestrado, Paraná, Brasil) observou em condições ambientais que as ninfas de Panstrongylus megistus (Burmeister, 1835) eclodiram entre 25 e 34 dias no verão e 60 e 74 dias no inverno. EF Rangel (1982 Anais Soc Ent Brasil 11: 251-254) observou a influência da temperatura no período de incubação dos ovos de 13 espécies, concluindo que nos ovos mantidos a 30 e 34oC o período de incubação foi mais curto do que nos do grupo controle, mantidos a 25 ± 3oC.

No presente trabalho o período de incubação dos ovos do grupo CC variou de 13 a 19 dias com média de 16,4; este período foi significativamente inferior ao obtido para os ovos do grupo CA onde a amplitude foi de 17 a 25 dias com média de 22,8 (p<0,01) (Tabelas III). No período de observação dos ovos a temperatura do grupo CA variou de 23 a 28oC com média de 26oC, demonstrando que um aumento médio de 2oC na temperatura foi suficiente para acelerar o desenvolvimento embrionário, resultando numa redução média de seis dias no período de incubação.

Desenvolvimento pós-embrionário - Ao contrário do ocorrido durante a incubação dos ovos, as diferenças nas condições de manutenção dos insetos não foram suficientes para causar alterações no desenvolvimento pós-embrionário. A partir da eclosão, novos fatores, inerentes à nova fase da vida, como manipulações, deslocamentos, repastos e novas funções metabólicas e fisiológicas podem ter sido mais importantes, e deste modo a influência da temperatura não foi tão marcante. Mesmo assim a média de duração do ciclo, da eclosão à fase adulta, foi de 192 dias para os insetos do grupo CC, 26 dias a menos que os do grupo CA, onde a média foi de 218,1. Comparando-se os estádios ninfais de cada grupo, não foram encontradas diferenças significativas no período de desenvolvimento exceto no 2o estádio (p<0,01). Essa diferença pode ser explicada pela média da temperatura registrada no período de observação deste estádio que foi inferior (23oC) à obtida para as demais fases do desenvolvimento, demonstrando que uma diferença média de 5oC é suficiente para alterar significativamente o desenvolvimento pós-embrionário desta espécie. Os limites extremos de temperaturas suportáveis por algumas espécies já foram determinados por autores que estabeleceram 37oC como temperatura máxima suportável pelo T. infestans (SB Pessôa & NV Barros 1939 Folha Méd 20: 285-287) e 10oC como a temperatura mínima para a manutenção dessa espécie (ME Joerg 1962 Bol chil Parasitol 17: 17-19). A temperatura de 20oC foi apontada como a mínima necessária para alimentação, dispersão e reprodução de espécies argentinas (SI Curto de Casas & RU Carcavallo 1984 Chagas 1: 35-40). Entretanto, ainda é preciso estabelecer as variações de temperatura que podem causar diferenças significativas no desenvolvimento desses vetores, a ponto de torná-los mais ou menos importantes do ponto de vista epide-miológico. Em espécies observadas em laboratório a duração do ciclo foi maior a 25oC do que a 30oC; esses resultados fazem parte de uma série de trabalhos intitulada Influência da Temperatura na Biologia de Triatomíneos. A Tabela III sumariza estes resultados e os de outros autores.

Número de repastos realizados em cada fase -O número de repastos tem uma real importância epidemiológica, já que quanto mais contatos o vetor e o hospedeiro mantiverem, maior será a probabilidade de uma infecção ou transmissão doTrypanosoma cruzi. Por outro lado, quanto menos vezes o vetor se expuser na procura pelo hospedeiro, maiores serão as chances de sobrevivência (E Juarez 1970 Rev Saúde públ S Paulo 4: 147-166). A determinação da freqüência alimentar ideal, onde não ocorre a limitação de parâmetros vitais, e da freqüência crítica, onde esses parâmetros começam a ser afetados, tem grande importância epide-miológica e ajuda a otimizar criações em laboratório. O oferecimento semanal da alimentação permitiu avaliar o número de repastos necessários à ocorrência da ecdise. Não houve diferença significativa entre as médias obtidas em todos os estádios para os dois grupos. No 1o estádio a média foi de um repasto para ambos os grupos. Do 2o ao 4o estádios as médias obtidas para os dois grupos foram inferiores a dois repastos, e somente no 5o estádio foram necessários mais de três repastos em média, para que as ninfas de ambos os grupos atingissem a fase adulta. Muitas espécies podem atingir até o 4o estádio com apenas um repasto por estádio (PA Buxton 1930 Trans Entomol Soc London, WH Hack 1955 Ann Inst Med Reg 4: 125-147). A Perlowagora-Szumlewicz (1953 Rev Bras Malariol D trop 5: 35-47) conseguiu abreviar o período de desenvolvimento de T. infestansalimentando-o a cada quatro dias. MG Freitas et al. (1967 Arq Esc Vet 19: 81-87) demonstraram que com alimentação semanal o período de desenvolvimento do Rhodnius neglectus Lent, 1954 foi mais curto, se comparado à alimentação quinzenal; a mesma relação foi obtida por DR Cabello et al. (1988 Mem Inst Oswaldo Cruz 83: 441-446) para adultos deRhodnius neivai Lent, 1953.

Percentual de mortalidade - O percentual de mortalidade do 1o estádio foi de 3,4% para os dois grupos, no 2o estádio somente o grupo CC apresentou mortalidade (3,4%), no 3o e 4o estádios não houve mortalidade em nenhum dos grupos, enquanto que no 5o estádio os percentuais foram 10,7% no grupo CC e 6,9% no grupo CA. Nota-se que não houve diferença entre os grupos, exceto pelo 5o estádio do grupo CC que apresentou um aumento (4%) no percentual. As taxas de mortalidade dos triatomíneos geralmente são mais elevadas no 1o e 5o estádios; no 1o geralmente devido a dificuldade de alimentação e no 5o principalmente pela ocorrência de ecdises defeituosas ou incompletas. AC Barretto et al. (1981 Rev Inst Med Trop São Paulo 23: 18-27) e JM Costa et al. (1987 Mem Inst Oswaldo Cruz 82: 111-118) associaram a alta taxa de mortalidade de Dipetalogaster maxima no 5o estádio a anomalias ocorridas na muda, que poderiam estar relacionadas a problemas com a fonte alimentar. O mesmo foi relatado por H Lent e A Valderrama (1977Rev Brasil Biol 37: 325-344) para três espécies de Rhodnius e por DS Rocha et al. (1994 Mem Inst Oswaldo Cruz 89: 265-270) para Rhodnius pictipes Stal, 1872. JE Rabinovich (1972 J Med Entomol 9: 351-370) estudando T. infestans e J Jurberg e EF Rangel (1984 Mem Inst Oswaldo Cruz 79: 303-308) pesquisando Rhodnius pallescens Barber, 1932 também relataram a alta mortalidade no 5o estádio, porém, não fizeram comentários a respeito de problemas na ecdise.

Em ambos os grupos estudados o ciclo de T. melanosoma durou cerca de seis meses. Os insetos atingiram até o 4oestádio com menos de dois repastos por fase e não sofreram muita influência das diferenças nas condições ambientais, demonstrando que essa espéciepossui um excelente potencial biótico.

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